A educação a distância é um recurso de incalculável importância como modo apropriado para
atender a grandes contingentes de alunos de forma mais efetiva que outras modalidades e sem
riscos de reduzir a qualidade dos serviços oferecidos em decorrência da ampliação da clientela
atendida.
A escolha da modalidade da educação a distância, como meio de dotar as instituições
educacionais de condições para atender às novas demandas por ensino e treinamento ágil,
célere e qualitativamente superior, tem por base a compreensão de que, a partir dos anos
sessenta, a educação a distância começou a distinguir-se como uma modalidade não -
convencional de educação, capaz de atender com grande perspectiva de eficiência, eficácia e
qualidade aos anseios de universalização do ensino e, também, como meio apropriado à
permanente atualização dos conhecimentos gerados de forma cada mais intensa pela ciência e
cultura humana.
A educação a distância não surgiu no vácuo (Keegan 1991,11), tem uma longa história de
experimentações, sucessos e fracassos. Sua origem recente, já longe das cartas de Platão e das
epístolas de São Paulo, está nas experiências de educação por correspondência iniciadas no
final do século XVIII e com largo desenvolvimento a partir de meados do século XIX
(chegando aos dias de hoje a utilizar multimeios que vão desde os impressos à simuladores
online, em redes de computadores, avançando em direção da comunicação instantânea de
dados voz-imagem via satélite ou por cabos de fibra ótica, com aplicação de formas de grande
interação entre o aluno e o centro produtor, quer utilizando-se de inteligência artificial-IA, ou
mesmo de comunicação instantânea com professores e monitores).
Do início do século XX, até a Segunda Guerra Mundial, várias experiências foram adotadas
desenvolvendo-se melhor as metodologias aplicadas ao ensino por correspondência que,
depois, foram fortemente influenciadas pela introdução de novos meios de comunicação de
massa, principalmente o rádio, dando origem a projetos muito importantes, principalmente no
meio rural.
A necessidade de capacitação rápida de recrutas norte-americanos durante a ll Guerra
Mundial faz aparecerem novos métodos (entre eles se destacam as experiências de F.Keller
para o ensino da recepção do Código Morse, v. Keller, 1943) que logo serão utilizados, em
tempos de paz, para a integração social dos atingidos pela guerra e para o desenvolvimento de
capacidades laborais novas nas populações que migram em grande quantidade do campo para
as cidades da Europa em reconstrução.
No Brasil, desde a fundação do Instituto Rádio Monitor, em 1939, e depois do Instituto
Universal Brasileiro, em 1941, várias experiências foram iniciadas e levadas a termo com
relativo sucesso (Guaranys; Castro, 1979, 18). Entretanto, em nossa cultura chama a atenção
um traço constante nessa área: descontinuidade dos projetos, principalmente os
governamentais.
Entre as primeiras experiências de maior destaque encontra-se certamente, a criação do
Movimento de Educação de Base - MEB, cuja preocupação básica era alfabetizar e apoiar os
primeiros passos da educação de milhares de jovens e adultos através das "escolas
radiofônicas", principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Desde seus primeiros
momentos, o MEB distinguiu-se pela utilização do rádio e montagem de uma perspectiva de
sistema articulado de ensino com as classes populares. Porém, a repressão política que se
seguiu ao golpe de 1964 desmantelou o projeto inicial, fazendo com que a proposta e os ideais
de educação popular de massa daquela instituição fossem abandonados.
Mas o verdadeiro salto dá-se a partir de meados dos anos 60 com a institucionalização de
várias ações nos campos da educação secundária e superior, começando pela Europa (França
e Inglaterra) e se expandindo aos demais continentes. Walter Perry e Greville Rumble
(1987,4) citam as experiências que mais se destacaram. Em nível do ensino secundário:
HermodsNKI Skolen, na Suécia; Radio ECCA, na llhas Canárias; Air Correspondence High
School, na Coréia do Sul; Schools of the Air; na Austrália; Telesecundária, no México; e
National Extension College, no Reino Unido. Em nível universitário: Open University, no
Reino Unido; FernUniversitat, na Alemanha; Indira Gandhi National Open University, na
India; Universidade Estatal a Distância, na Costa Rica. As quais podemos acrescentar a
Universidade Nacional Aberta, da Venezuela; Universidade Nacional de Educação a
Distância, da Espanha; o Sistema de Educação a Distância, da Colômbia; a Universidade de
Athabasca, no Canadá; a Universidade para Todos os Homens e as 28 universidades locais
por televisão na China Popular, entre muitas outras.
Atualmente mais de 80 países, nos cinco continentes, adotam a educação a distância em todos
os níveis de ensino, em sistemas formais e não-formais de ensino, atendendo a milhões de
estudantes. A educação a distância tem sido largamente usada para treinamento e
aperfeiçoamento de professores em serviço, como é o caso do México, Tanzânia, Nigéria,
Angola e Moçambique. Programas não-formais de ensino têm sido utilizados em larga escala
para adultos nas áreas de saúde, agricultura e previdência social, tanto pela iniciativa privada
como pela governamental. Hoje é crescente o número de instituições e empresas que
desenvolvem programas de treinamento de recursos humanos através da modalidade da
educação a distância. Na Alemanha, em que pese reclamações empresariais com respeito ao
alto custo da mão-de-obra, o elevado índice de produtividade do trabalho está relacionado
diretamente aos investimentos em treinamento e reciclagem. Na Europa, de forma acelerada
se investe em educação a distância para o treina mento de pessoal na área financeira,
representando o investimento em treinamento maior produtividade e redução de custos na
ponta (Nunes, 1992a). Nos Estados Unidos, no programa do novo governo, que tomou posse
em janeiro de 1993, ganha destaque o investimento em formação e treinamento de pessoal, o
que irá certamente gerar significativo impulso à educação a distância naquele país.
As experiências brasileiras, governamentais, não-governamentais e privadas, são muitas e
representaram, nas últimas décadas, a mobilização de grandes contingentes de técnicos e
recursos financeiros nada desprezíveis. Contudo, seus resultados não foram ainda suficientes
para gerar um processo de irreversibilidade na aceitação governamental e social da
modalidade de educação a distância no Brasil. Os principais motivos disto são a
descontinuidade de projetos, a falta de memória administrativa pública brasileira e certo
receio em adotar procedimentos rigorosos e científicos de avaliação dos programas e projetos.
Ivônio Barros Nunes (professor e pesquisador da Unicamp)
Artigo publicado originalmente em:
Revista Educação a Distância nrs. 4/5, Dez./93-Abr/94 Brasília, Instituto Nacional de
Educação a Distância, pp. 7-25
Olá Maria de Lourdes!
ResponderExcluirGostei de ver, bom trabalho.
Continue buscando, pesquisando assuntos relevantes acerca da EAD.
Abraços,
Vilma.